Agente da PF há 17 anos, o professor Rodrigo Varela fala sobre a carreira e dá dicas para os candidatos que farão provas no próximo dia 23 de maio.
O concurso PF reúne mais de 321 mil inscritos (número ainda não oficial), sendo 222 mil somente para agente, o que resulta em uma relação de 248,94 candidatos/ vaga. A enorme concorrência dá a exata dimensão do quanto a carreira desperta o interesse naqueles que querem trabalhar na área de Segurança Pública.
Mas qual é o grande chamariz da carreira que sempre atrai milhares de pessoas nos concursos da Polícia Federal? Além da estabilidade e da boa remuneração, na visão de Rodrigo Varela, que é agente há 17 anos, outro grande atrativo é o fato de a função ser muito dinâmica, onde existe uma variedade de atividades a serem desenvolvidas.
“Eu costumo dizer que tenho vários empregos num só. Ao mudar de delegacia é como se mudasse de emprego, porque as atividades são muito diferentes”, disse Rodrigo Varela, que além de agente da PF é também professor de Direito Penal e Processo Penal da Degrau Cultural.
Varela, que hoje está lotado no Aeroporto Galeão, diz que nas capitais, as delegacias são especializadas e, dessa forma, o agente atua na repressão de algum crime federal como, por exemplo, entorpecentes, crimes financeiros, previdenciários e ambiental. “Já nas delegacias descentralizadas, que não estão em capitais dos estados, o agente faz todo tipo de trabalho.”
Na entrevista, que pode ser conferida abaixo, Varela fala mais sobre a rotina de um agente, explica como pode ser cumprida a carga horária de trabalho, o curso de formação profissional, além de dar dicas de estudo para aqueles que estão participando do atual concurso PF e que deverão fazer as provas objetivas e discursivas no próximo dia 30.
DEGRAU CULTURAL - Você foi aprovado no concurso para agente da PF em 2004. Existe o segredo do sucesso dessa conquista?
Rodrigo Varela - Eu fui aprovado no concurso de 2004 para o cargo de agente de Polícia Federal. A minha preparação foi facilitada porque eu tinha me formado em Direito em 2002, portanto estava com o conteúdo bem sedimentado na cabeça. Aliado a isso, foram quase 1.200 vagas para agente naquele concurso, ou seja, um quantitativo bem próximo da atual seleção. A nota de corte do meu concurso foi bem baixa, ficou em 50 pontos. Claro que a realidade de hoje é outra, por isso minha aprovação não serve muito de referência. Hoje, sem dúvidas, está bem mais difícil passar. Apesar disso, o atual concurso está com uma quantidade de vagas bem grande, próxima do meu.
Você abdicou de muita coisa para estudar para o concurso da PF?
Como qualquer preparação para concursos, fiz sim muitos sacrifícios. Eu era capitão do Exército, trabalhava o dia todo e à noite ia para o curso preparatório. Já aos fins de semana, estudava quase que o tempo todo. Não tive vida social em 2003 e 2004. Não existe aprovação sem sacrifícios!
Além de realizar um estudo antecipado para as provas objetivas, você realizou uma preparação física em paralelo ao estudo teórico? Na sua visão, é fundamental que os atuais candidatos tenham essa preocupação desde já?
A minha preparação física foi bem facilitada pelo fato de ser um militar do Exército. Eu já fazia atividades físicas intensas rotineiramente. No entanto, isso deve ser, sim, uma preocupação dos candidatos. Os índices da PF são bem difíceis. Tem que treinar muito. No último concurso quase 60 % dos aprovados na primeira etapa ficaram reprovados no teste físico.
Além da remuneração e da estabilidade, quais são, na visão, os principais atrativos da carreira de agente da PF?
Em relação à carreira de agente de Polícia Federal, o principal atrativo sem sombra de dúvidas é a variedade de atividades desenvolvidas. Eu costumo dizer que tenho vários empregos num só. Ao mudar de delegacia é como se mudasse de emprego, porque as atividades são muito diferentes. A título de exemplo, eu atualmente estou lotado na Delegacia do Aeroporto do Galeão e antes estava na Delegacia de Combate a Crimes Patrimoniais, como roubo aos Correios e Caixa Econômica Federal. Não precisa ser um especialista pra ver que as atividades são totalmente diferentes. Isso é ótimo porque você não enjoa do trabalho. Acho muito ruim ficar fazendo a mesma coisa durante 30 anos.
O que faz efetivamente no dia a dia um agente da PF? Em quais áreas/setores ele pode atuar?
A rotina varia muito da lotação. Nas delegacias descentralizadas, que não estão em capitais dos estados, o agente faz todo tipo de trabalho. Já nas capitais, as delegacias são especializadas. Aí você atua na repressão de uma espécie de crime federal como, por exemplo, entorpecentes, crimes financeiros, previdenciários, ambiental, etc.
Como é cumprida a carga horária do agente da PF? Na maior parte das vezes, é em regime de escala?
A carga horária é de oito horas diárias, de segunda a sexta. Mas vale lembrar que a profissão exige dedicação exclusiva. Isso quer dizer que existe hora pra entrar, mas não existe hora pra sair. No entanto, como existe um controle eletrônico de ponto, é possível compensar quando a carga de trabalho exceder a carga horária. Existem também os trabalhos de plantão, que atualmente é o meu caso aqui no Aeroporto do Galeão. Nesse caso, a escala é 24/72 horas, ou seja, trabalha um dia e folga três.
Além do auxílio-alimentação de R458, a quais outros benefícios e gratificações os agentes da PF têm direito?
O salário da PF é subsídio, o que não permite gratificações. No entanto existe o adicional de fronteira, que é de R$90 por dia de trabalho nas áreas de fronteira. Como geralmente o mês tem 22 dias úteis, esse valor é de aproximadamente R$2 mil. Vale lembrar que os novos policiais praticamente todos serão lotados em área de fronteira, portanto receberão esse adicional. Tá vendo? Nem tudo na fronteira é ruim.
O que se aprende durante o curso de formação, em Brasília? Quanto tempo dura? Quanto o concursado recebe durante esse período?
Durante o curso de formação, o candidato recebe metade do salário do cargo. Na Academia, ele aprenderá as técnicas policiais, tais como tiro, abordagem, direção operacional e vigilância, além de estudar cada tipo de investigação que a PF executa. As matérias do concurso não são mais cobradas. Tem apenas uma disciplina de Noções de Direito, para relembrar o Direito Penal e Processo Penal. As demais matérias são Polícia de Entorpecentes, Polícia de Imigração, Segurança Aeroportuária e etc. A duração normal do curso é de um semestre, mas tem sido mais curta nos últimos concursos.
Na maior parte das vezes, os agentes recém aprovados costumam ser lotados em região de fronteira. Esse foi o seu caso? Conte um pouco sobre sua primeira lotação até você voltar para o Rio de Janeiro.
Os novos policiais serão lotados, muito provavelmente, na fronteira. No meu caso, eu ainda dei muita sorte, porque meu concurso, em 2004, foi para mais de mil vagas. Aí acabaram aparecendo algumas vagas no Sudeste, mas foram poucas. Eu consegui ir para São Paulo capital e trabalhei no Aeroporto de Guarulhos. Após três anos, consegui remoção para o Rio de Janeiro. No entanto, a realidade hoje é bem diferente. O candidato tem que estar mentalmente preparado pra ficar na fronteira em média cinco anos. Mas como eu digo, não há mal que dure pra sempre. Um dia todos voltam para a casa. O segredo é tentar viver e aproveitar o que o local oferece. Garanto que viverão coisas que nunca imaginaram viver. Terão histórias para contar para os filhos e netos, tal como “papai já namorou até uma índia, filhão”.
É grande a possibilidade de crescimento profissional na PF em curto espaço de tempo?
As possibilidades da carreira são inúmeras. Tudo depende do seu perfil. Temos vários cursos operacionais como o Comando de Operações Táticas (COT), o Comando de Aviação Operacional (Caop), Núcleo de Policiamento Marítimo (Nepom), dentre outros. Mas também tem para quem prefere a área mais técnica, como cursos de inteligência, tecnologia da informação, comando e controle e etc. Com o tempo, cada um segue a área que tem mais interesse. Claro que no início você vai fazer aquilo que for designado pra fazer, pois “pato novo não mergulha fundo”. Mas depois, cada um segue seu caminho.
Durante os seus 17 anos de carreira na PF, qual foi a operação que participou que mais marcou sua trajetória profissional?
Na minha carreira eu atuei em muitas operações, como a Lava Jato por exemplo, onde realizei busca em inúmeras mansões aqui no Rio de Janeiro. No entanto, a que mais me marcou foi a Operação Satiagraha, porque foi a primeira operação de grande porte da PF que prendeu pessoas poderosas, e eu tinha pouquíssimo tempo de polícia na época. Eu prendi o investido Naji Nahas e minha foto foi parar na capa dos jornais o conduzindo para o exame de corpo de delito. Foi ao mesmo tempo impactante e meio assustador! Você percebe que está fazendo parte da história do país.
Hoje, além de ser agente da PF, você é professor de curso preparatório para esse concurso. Quais estratégias de estudo adotar faltando poucos dias para a aplicação das provas objetiva e discursiva?
Como professor, a orientação para os alunos é estudar muito. Não tem outro caminho. A jornada não é fácil, mas a vitória é muito gratificante. Tem uma frase do filósofo e professor Leandro Karnal que eu gosto muito e serve de mensagem final para todos os alunos: “Quanto mais eu trabalho, mais sorte eu tenho”. Quando você passar, muitos vão dizer que foi sorte, mas só você sabe o que passou para “obter essa sorte”.
Quais são os assuntos de Legislação Especial e Direito Penal/Processo Penal, que constam no conteúdo programático, que o senhor acredita que serão mais explorados na prova para agente?
O Cebraspe, assim como a maioria das bancas, tende a explorar as novidades. Portanto, os assuntos que tiveram mudanças recentes são as minhas apostas. O Pacote Anticrime deve ser bastante explorado nas três disciplinas. Em Penal, também é importante estudar as mudanças recentes nos crimes de roubo, com novos aumentos de pena para uso de armas e explosivos. Em processo Penal, fique atento às mudanças na parte de prisão, especialmente a audiência de custódia, além do bom e velho inquérito policial. Já nas leis Especiais, estou apostando muito na Lei de Abuso de Autoridade, além do Estatuto do Desarmamento e da boa e velha Lei de Entorpecentes, que não pode faltar em qualquer prova de polícia. Nos últimos dez anos, nenhuma prova de polícia deixou de cair, pelo menos, uma questão da Lei de Drogas. Finalmente, a Lei de Crimes Ambientais também merece destaque, pois o assunto está muito badalado no cenário nacional e internacional.
Qual mensagem final você pode deixar para aqueles que estão participando do concurso?
Para finalizar, quero dizer que eu já tenho no meu currículo vários ex-alunos que são meus atuais colegas. Não tenho satisfação maior como professor. É a sensação do dever cumprido em grau máximo. Espero que você seja o próximo!




