Rafael Haddad, especialista em Hipnose Clínica e Psicanálise, explica como esse mecanismo pode auxiliar no autocontrole durante a preparação para um concurso.

Por José Lucas Brito

É praticamente impossível dissociar o desempenho profissional e intelectual com o estado emocional de um indivíduo. A sinergia da razão e da emoção são fundamentais para que uma pessoa que se inscreve em um concurso público atinja os objetivos que traçou, pois sem ela se reduzem bastante as chances de conseguir aprender a gama de conteúdos necessários para as provas de um concurso e, consequentemente, de conseguir ser aprovado.

Já foi explicitado em outras matérias que a ansiedade em excesso é altamente destrutiva, principalmente às vésperas da prova quando vários questionamentos dominam a mente do concurseiro.

Em recente entrevista à DEGRAU CULTURAL, o hipnólogo clínico, psicanalista, filósofo e psicopedagogo Rafael Haddad explica que a ansiedade é como se fosse uma leoa prestes a nos atacar. O pensamento de uma pessoa que se encontra em crise de ansiedade está voltado para um único fim: SOBREVIVER!    

Nós temos leoas correndo atrás de nós todos os dias. Seja os boletos a pagar, a prova do vestibular, nossos concorrentes, seja a matéria a estudar, seja o clima, seja “o que vão pensar de mim?”,  seja a roupa da moda, seja o que minha esposa vai cobrar de mim, seja a mensagem do WhatsApp, enfim, nós temos leoas todos os dias. E no dia que você resolve o problema, aparece um outro problema”.

Haddad explica ainda que a globalização impôs mais responsabilidades para um indivíduo viver de forma saudável em sociedade, o que desencadeou um sentimento chamado de fuga e reação, ou seja, como se estivéssemos em perigo e ameaça constante.

E analisando os desafios inerentes de um concurseiro, quando ela só pensa em sobreviver, ela não pensa em mais nada, segundo o especialista. Dessa forma, é praticamente inviável aprender qualquer coisa, pois a prioridade, no momento em que está com um nível de ansiedade elevado é fugir do perigo iminente.

Quais sintomas revelam a perda de controle emocional?

Nessa mesma entrevista, Rafael Haddad considera que é a ansiedade importante para colocar as pessoas em ação, para que elas tenham a disposição para entregar as demandas que lhes são cobradas. No caso dos concurseiros, estar com a ansiedade sob controle contribui para ele cumpra o cronograma de estudos que foi estabelecido, para resolver o maior número possível de simulados e questões até o dia das provas, entre outras responsabilidades, a fim de evitar a famosa procrastinação.

Porém, em excesso, como tudo na vida, a ansiedade é como se fosse a Medusa (Monstro da Mitologia Grega) que petrifica alguém que resolve olhar para ela. E nesse momento, a ansiedade impede que o concurseiro tenha um alto nível de desempenho nos estudos, surgindo sinais como pensamento acelerado, falta de foco, ausência de sono e até crenças limitantes, ou seja, pensamentos sabotadores, do tipo: eu não consigo”, “não vai dar certo”, “não tenho capacidade para isso”, “nada que eu faço dá certo”, entre outras:

“Essas frases vêm daquilo que o seu corpo está sentindo e o seu corpo está sentindo que tem uma leoa atrás de você e você pensa que não é capaz de dar conta dela. Percebam que o nosso corpo é muito coerente com o que a gente pensa e o indivíduo acha que ele é livre para pensar. Só que nós reagimos às reações químicas que existem dentro de nós (...) Dopamina em excesso quer dizer 'Perigo, Perigo'. Não é coerente para um concurseiro ansioso pensar que o resultado será positivo”, acrescenta o hipnólogo.

Com base nessa análise de Haddad, não basta apenas estudar para ingressar numa carreira pública, pois é necessário considerar os fatores físicos e psicológicos que possui um indivíduo para que ele consiga assimilar mais 90% do que está sendo estudado.

O que é a Hipnose Clínica? Como ele ajudará os concurseiros mais ansiosos?

Convencionou-se no imaginário coletivo que quem faz hipnose é uma espécie de mágico, capaz de controlar a mente das pessoas, fazendo-as adormecerem e obedecerem aos seus comandos. Porém, a Hipnose Clínica não tem nenhum truque e nem acontece por controle do profissional.

Segundo o especialista desta matéria, a Hipnose acontece quando a concentração está em estado ampliado de consciência. Relatou também que a ansiedade pode ser considerada uma hipnose, que faz o indivíduo pensar somente naquilo que está lhe pressionando e disse que o trabalho dele é tirar o paciente do estado hipnótico, não o contrário, já que a Hipnose, em si, não teria a função de terapia, mas que a partir do estado hipnótico, seria possível aplicar técnicas terapêuticas para elevar o foco e trazer relaxamento para quem se encontra com a ansiedade em picos elevados.

Para ele, a Hipnoterapia tem 96% de eficácia nos tratamentos. Ela costuma ser aplicada em pacientes com transtornos mentais e físicos, assim como para auxiliar alguém a combater hábitos e sentimentos indesejáveis, que tem origem em fatos do passado que não são lembrados pela pessoa em tratamento. Nesse caso, hipnoterapeuta teria a função de identificar esses hábitos e ajudar o paciente a confrontá-los. Em 2018, o tratamento por Hipnoterapia foi incluído no Sistema Único de Saúde (SUS).

E como essa terapia ajudaria aos concurseiros mais estressados e nervosos? Rafael Haddad explica:

“A primeira coisa é o tempo. Se você reduz o tempo, você aumenta antecipadamente o nível de confiança do concurseiro. Por exemplo, para o Enem (que aconteceu em novembro), muitas pessoas só buscam ajuda quando está próximo das provas. Olha o quanto de tempo perdido. Você teria um tempo maior de preparação com muito mais capacidade. Então, por que a Hipnose Clínica ajudaria? Porque você aprenderia a adestrar aquele bichinho que está dentro de você, o seu elefante (eu uso muitos animais como analogia), você começa a controlar as emoções que estão aí dentro”.

Por fim, uma terapia totalmente gratuita indicada pelo hipnólogo que pode fazer com que um concurseiro consiga ter calma e aprender o conteúdo exigido no edital é encontrar, dentro de si, o prazer em estudar. Nem que para isso, seja necessário enganar o próprio cérebro:

“É muito mais gostoso quando se tem prazer em estudar, você aprende muito mais. Quer ver uma coisa? Quando você é obrigado a estudar aquela disciplina que você não gosta, você não aprende, parece que tem um bloqueio. É muito comum encontrar pessoas com bloqueio em Inglês, em Química, em Física, em Matemática, “por que eu não gosto, “por que eu não suporto” enfim. Quer uma dica? O teu cérebro não sabe diferenciar mentira de verdade. Ele simplesmente sabe “Sim ou Não”. Se você diz para ele que você não gosta de Matemática e não vai aprender, ele diz: Sim. Se você disser que é um gênio da matemática, ele vai dizer sim. Porquê para o cérebro isso não faz diferença. Portanto, minta, diga que você gosta, diga que é a melhor matéria do mundo e comece a fingir, com prazer, que você está gostando de estudar aquilo. O teu corpo vai começar a aprender (...) O seu orgulho vai ficar ferido, mas sua nota vai aumentar. Então, coloque na balança o que é mais importante”.

 

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