Psicóloga Luciana Miranda orienta como identificar os sinais de que uma pessoa não está bem e como ela reencontra a motivação para buscar o sonho de ingressar no serviço público.
O dia 10 de setembro foi instituído pela Organização Mundial da Saúde (OMS), como o Dia Mundial da Prevenção do Suicídio. Nessa data, há 27 anos na cidade de Westminster, no estado norte-americano do Colorado, a família e amigos prestavam as últimas homenagens ao jovem Mike Emme, que havia se suicidado aos 17 anos dentro do próprio carro, um Ford Mustang da cor amarela. No velório, os amigos de Mike levaram uma cesta com centenas de cartões em que estava escrito: “Se você precisar, peça ajuda”.
Em alusão a esse triste fato e à cor do Mustang de Mike, no Brasil, desde 2015, existe a Campanha do Setembro Amarelo, voltada para conscientizar à sociedade sobre os problemas emocionais que podem levar uma pessoa ao suicídio. Essa campanha surgiu da parceira do Centro de Valorização da Vida (CVV), do Conselho Federal de Medicina e da Associação Brasileira de Psiquiatria.
Mas, infelizmente, a depressão e outros problemas de ordem psíquica, como as crises de ansiedade e transtornos bipolares, atingem pessoas de várias classes sociais, homens e mulheres, jovens e idosos. E não seria diferente com as pessoas que prestam concurso público. Para quem acha que para passar em um concurso basta ter crânio, esquece que o controle emocional e psíquico também é fundamental para enfrentar o desafio de estudar todo o conteúdo exigido em um edital e conseguir a aprovação nas fases de avaliação.
Afinal, como um concurseiro enfrenta a depressão e outros monstros internos para não permitir que eles interrompam o sonho de ingressar no serviço público?
Para orientar os concurseiros que estão vivenciando esse problema, a equipe de reportagem da DEGRAU CULTURAL convidou a psicóloga Luciana Miranda, especialista em Terapia Cognitivo Comportamental, que explicou também as contribuições do Setembro Amarelo e como o Brasil se enquadra no cenário mundial no que tange ao combate ao suicídio.
Leia a entrevista na íntegra:
O que é a campanha do Setembro Amarelo, presente no Brasil desde 2015? Ele vem conseguindo atingir seus objetivos?
A campanha é uma conscientização junto a população a respeito da prevenção ao suicídio. A intenção da campanha é salvar vidas, trazer o diálogo e o conhecimento e entendo que esta é uma ferramenta importante no combate ao suicídio. Ao trazer mais visibilidade à causa, mais diminuímos o estigma e o silêncio que ronda esta temática, quebrando o tabu. Ao longo desses anos a campanha tem trazido resultados positivos, ganhando a adesão de diversos parceiros como instituições privadas e órgão públicos, ganhando maior visibilidade e conseguindo aplicar mais ações junto à população.
É possível identificar que uma pessoa não está bem e que ela pode atentar contra a própria? Se sim, quais são os sinais?
Sim, normalmente ela começa a apresentar mudanças de comportamentos, como parar de fazer coisas ou frequentar lugares das quais gostava, começa a ficar mais desapegadas de seus bens materiais e de objetos que antes tinha muito apego, começa a falar frases, “como a vida não vale a pena”, “nada faz sentido” ou “ninguém sente ou vai sentir a minha falta”...
Outro ponto de alerta são comportamentos imprudentes, como o consumo excessivo de álcool ou outras drogas, direção agressiva ou qualquer outro tipo de atitude que evidenciem a falta de cuidado com sua integridade física.
Quais fatores levam uma pessoa a praticar o suicídio?
Existe diversas causas que podem levar a pessoa a chegar a essa atitude mais extrema, dentre eles estão um quadro grave de depressão, transtorno bipolar, dentre outros transtornos mentais, abuso de drogas e experiências muito traumáticas que geraram grande estresse e ansiedade.
A população entre 15 e 29 anos, que costuma ser a faixa de idade com maior presença em concursos públicos, é a mesma em que mais se comete suicídio. A OMS já havia alertado que essa é a terceira principal causa de mortes de adolescentes e jovens. Por que justamente esse grupo faz parte dessa triste estatística?
Porque é uma fase da vida de muitas mudanças físicas e sociais, este é aquele período da vida que estamos em busca da aprovação de amigos e familiares e na busca incessante imposta pela nossa sociedade de que devemos ter uma boa formação, um bom emprego, bens materiais e o parceiro ideal, todas essas cobranças somadas ao estilo agitado que levamos hoje prosperam muito para a prática de comportamentos ou o aparecimento de doenças que levam à tentativa de suicídio.
No Brasil, em 2020, registraram-se nada menos que 12.895 suicídios, segundo dados do Anuário Brasileiro de Segurança Pública. O país está inserido no continente americano, onde os índices de suicídio aumentam na contramão do mundo, que apresenta reduções (as Américas apresentam aumentam de 17% entre 2000 e 2019), segundo a Organização Pan-americana da Saúde, vinculada à OMS. Por que o Brasil apresenta um número tão alto? Faltam políticas públicas direcionadas ao tratamento de doenças psíquicas?
O Brasil é um país que apresenta muitas crises econômicas, políticas, altos índices de desemprego, além da falta de acesso a saúde mental, todos esses fatores somados e a pobreza, como resultado de tudo isso, é um fator preponderante para estes números de vidas perdidas. Estudos comprovam que países de média e baixa renda tem um índice maior de suicídio, e no Brasil temos valores expressivos nas regiões Norte e Nordeste.
Certamente, as poucas políticas públicas e a dificuldade de acesso ao tratamento, principalmente para as pessoas que não tem acesso a plano de saúde, é um grande agravante.
OBS.: As taxas de suicídio caíram nos 20 anos entre 2000 e 2019, com a taxa global diminuindo 36%, diminuições variando de 17% na região do Mediterrâneo Oriental a 47% na região europeia e 49% no Pacífico Ocidental. Mas na Região das Américas, as taxas aumentaram 17% no mesmo período, sendo que a Guiana, país vizinho ao Brasil, é o recordista no número de suicídios.
De acordo com o Ministério da Saúde, no Brasil são registrados cerca de 12 mil suicídios todos os anos. Cerca de 96,8% dos casos estavam relacionados a transtornos mentais como depressão, transtorno bipolar e o abuso de substâncias.
Em 2019, foi sancionada a Lei 13.819/2019, que institui a Política Nacional de Prevenção da Automutilação e do Suicídio.
A preparação para um concurso público e um vestibular pode desencadear um estágio de depressão ou ansiedade que, posteriormente, pode levar aos pensamentos suicidas? Se sim, de que forma?
Sim, este momento de se preparar para o vestibular ou concurso público e toda a dedicação que ele exige, como horas ininterruptas de estudo, privação do sono, alimentação irregular em alguns casos, e toda a carga emocional com a preocupação do resultado, além das expectativas do concurseiro e seus familiares, geram grande desgaste físico e emocional, que quando não cuidados vão evoluindo ao longo do tempo, podendo trazer ansiedade, depressão, dentre outros transtornos que levam ao estado de desanimo profundo, que consequentemente podem levar a esse tipo de pensamento suicida.
Como a psicologia interpreta a interferência da depressão sobre o aprendizado intelectual e sobre o aprendizado físico, já que em concursos para segurança pública há cobrança do Teste de Aptidão Física?
A psicologia interpreta a depressão com um estado de saúde que inspira cuidados e que não pode ser negligenciado de forma alguma. A pessoa nesse estado realmente apresenta mudanças cognitivas, como falta de concentração e memorização, que vão dificultar o entendimento e assimilação do conteúdo. Há também uma lentidão maior para a execução das tarefas, além da perda da qualidade que certamente serão detectados nestes testes de aptidão, porém é importante que o concurseiro ao passar pela entrevista junto ao avaliador, converse abertamente sobre sua situação e informe como está o seu tratamento e suas limitações, para que o avaliador tenha ciência no momento de avaliar.
Para o concurseiro que tem que enfrentar uma depressão durante a jornada de preparação, como ele consegue vencê-la? A quem ele pode recorrer?
O primeiro passo importante é a busca por um especialista, como um psicoterapeuta, e em casos mais moderados a ajuda do psiquiatra. Outro recurso importante é a busca pela rede de apoio, conversar com uma pessoa de confiança, manter a conexão com familiares e amigos. Esforçar-se para manter alguns hábitos alimentares e de sono. Evite auto cobrança, tente estudar; mas o dia em que não conseguir, tudo bem. Afinal, você está passando por uma questão de saúde, o que vale é a tentativa, amanhã é um outro dia e você tentará de novo.
Se alguém conhece um colega de estudos para concurso ou vestibular, que está enfrentando uma depressão e pensa em cometer suicídio, como esse colega deve ser ajudado?
Seja empático, pratique a escuta ativa e esteja disposto a ajudar. Nunca use frases como: “você precisa ser forte”, “você tem que reagir”, esse tipo de comentário geram o sentimento de mais impotência e tristeza. Incentive seu amigo a buscar ajuda especializada e sempre que ele precisar o faça companhia.
Conforme dito na abertura da matéria: “Se precisar, peça ajuda”. Depressão não é frescura. É uma doença, e como tal precisa ser tratada.




