Quem abre um edital de concurso pela primeira vez costuma sentir o mesmo: cansaço antes de começar. São páginas de conteúdo programático, matérias com dezenas de tópicos, artigos de lei listados em intervalos que parecem não ter fim. E a pergunta que vem em seguida é quase sempre a mesma: por onde começar?
Foi para responder a ela que muitos candidatos passaram a adotar o edital verticalizado. A ideia é simples, mas, segundo o diretor pedagógico da DEGRAU CULTURAL, Marco Brito, trata-se de uma das ferramentas mais mal aproveitadas da preparação.
“Muita gente monta com capricho, fica bonito, e nunca mais abre. Aí virou enfeite, não instrumento de estudo.”
O edital verticalizado é o conteúdo programático do concurso reorganizado em formato de tabela, com cada tópico em uma linha própria. Em vez de ler um bloco corrido com todos os assuntos de uma disciplina, o candidato passa a ter uma linha para cada um, com colunas para acompanhar o que já estudou, quando e com que resultado.
Brito resume a função em três ideias. A primeira é dimensionar o tamanho do trabalho. “O aluno só consegue planejar quando enxerga o todo. Sem isso, ele estuda no escuro e não sabe se está no começo, no meio ou atrasado”, afirma. A segunda, segundo ele, é não deixar nada para trás. Em editais extensos, é comum esquecer tópicos inteiros, e o esquecimento só aparece na prova.
A terceira, e para o especialista em concursos a mais importante, é medir o progresso com dados, e não com sensação. “A sensação engana. A pessoa acha que domina um assunto porque leu duas vezes. O edital verticalizado obriga a registrar o resultado das questões e mostra a verdade.”
Edital verticalizado: aprenda a montá-lo
O primeiro passo é partir do edital oficial do concurso, e não de uma versão pronta encontrada na internet. Modelos prontos podem estar desatualizados ou ter sido feitos para outro cargo. “O documento que vale é o edital do concurso que o aluno vai fazer. Cada vírgula ali pode cair na prova”, lembra Brito.
Depois, vem a divisão do conteúdo. A orientação é quebrar cada disciplina até o ponto em que um tópico possa ser estudado em uma ou duas sessões. “Se a linha diz apenas ‘Direito Constitucional’, não adianta. Tem que virar direitos fundamentais, organização do Estado, poderes, e assim por diante. Linha muito grande não se conclui, e o aluno desanima”, explica. O contrário também vale: dividir demais, até chegar a centenas de linhas, deixa a planilha pesada e, no fim, abandonada.
Com os tópicos separados, entram as colunas. Brito sugere um conjunto enxuto: disciplina, tópico, data do primeiro estudo, número de questões resolvidas, percentual de acerto, data da última revisão e uma nota de confiança, que pode ser marcada com cores.
Quem quiser pode somar o peso da disciplina na prova, informação que costuma constar no próprio edital. “O peso muda a prioridade. Um tópico de uma matéria com muitas questões merece mais atenção do que um de uma matéria com poucas”, diz.
O suporte pode ser uma planilha, um aplicativo de notas ou até uma folha impressa. “O melhor formato é o que o aluno vai realmente abrir todo dia”, resume o diretor.
Como usar de verdade o edital verticalizado?
É aqui, segundo Brito, que a maioria falha. O edital verticalizado só funciona se for atualizado logo depois de cada sessão de estudo, ainda que em dois minutos. E há uma regra que ele considera inegociável: o tópico só é marcado como estudado depois que o aluno resolve questões sobre ele.
“Ler o material não é estudar o assunto. Estudou quando fez questão e sabe o percentual de acerto.”
O segundo uso é o planejamento da semana. No domingo, o candidato olha a tabela e escolhe os tópicos dos próximos dias: os que ainda não viu, os de pior desempenho e os que estão há muito tempo sem revisão. “A tabela diz o que fazer. O aluno não perde meia hora decidindo o que estudar, porque a resposta já está ali”, diz.
O terceiro é a revisão. Ao registrar a data da última passagem por cada assunto, o candidato enxerga o que está esfriando. A recomendação do especialista em concursos é voltar aos tópicos em intervalos cada vez maiores, começando pelos de menor percentual de acerto.
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Há ainda um efeito menos óbvio, o psicológico. Ver as linhas ganhando cor ao longo das semanas dá ao candidato uma noção concreta de avanço, algo raro numa preparação que dura meses. “Quando a pessoa vê que 40% do edital já está verde, a ansiedade cai. Ela deixa de olhar para o que falta e passa a enxergar o que já conquistou”, observa Brito.
O diretor lista quatro armadilhas muito comuns. A primeira é copiar um modelo pronto sem adaptar. A segunda é detalhar tanto que a manutenção da tabela consome mais tempo que o estudo. A terceira é marcar o tópico como concluído depois da leitura, sem resolver questões. E a quarta, a mais frequente, é abandonar a planilha na terceira semana.
“Não precisa ser perfeito. Precisa ser vivo”, resume Brito. “Uma tabela simples, atualizada todo dia, vale muito mais do que uma obra de arte que ninguém olha.”
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